Se eu parar para pensar, a forma como a humanidade viaja sofreu mais transformações nos últimos 30 anos do que nos três séculos anteriores. O turismo sempre foi movido pelo desejo de descoberta, mas a mecânica por trás de “como chegar lá” é uma verdadeira aula sobre adaptação de mercado e inovação.
Convido você a fazer uma viagem no tempo comigo para entender como saímos das demoradas travessias de navio e chegamos à era da hiperconveniência, e por que, no final das contas, acredito que o fator humano ainda dita as regras do jogo.
1840 e o “Guia dos Pneus”: O Início da Curadoria
Imagine planejar uma viagem do porto de Santos para a Europa em 1840. Uma travessia transatlântica não era algo trivial. Para uma família de classe média da época, comprar passagens em uma cabine padrão consumia as economias de anos. Era uma decisão de vida, não apenas de férias.
Com a virada do século e a invenção do automóvel, o turismo começou a ganhar novas formas. Foi aí que surgiu um dos maiores “hacks” da história das viagens: o Guia Michelin. Em 1900, os irmãos Michelin queriam vender mais pneus. Para isso, as pessoas precisavam dirigir mais. A solução foi criar um guia gratuito com mapas e listas de hotéis e restaurantes charmosos. O recado era claro: “Pegue seu carro e vá até essa cidade comer bem”. Foi a primeira grande tentativa de curadoria turística para o consumidor final.
O Século XX e o Império das Agências de Viagem
Enquanto o turismo ganhava escala e a aviação comercial se consolidava, viajar ainda era logisticamente complexo. Como você reservava um hotel na Europa nos anos 1970? Como garantia o traslado sem falar a língua local?
Foi nesse cenário que as agências de viagem se tornaram o centro absoluto do setor. O agente era o detentor da informação. Foi a agência que popularizou a grande invenção da indústria: o “pacote de viagens”. Ao empacotar voo, hotel e traslado, a agência tirou a dor de cabeça do viajante e democratizou o acesso às férias. O agente era a ponte essencial entre o desejo e um mundo desconectado.
1997 vs. Hoje: A Democratização Digital
Então, veio a internet. Para termos uma ideia do impacto, em 1997, uma passagem de São Paulo para Londres custava cerca de US$ 1.000. Para uma família de quatro pessoas, isso era um investimento altíssimo. Viajar para o exterior era um evento raro.
A digitalização não só derrubou os preços devido à concorrência global, como revolucionou a hospedagem. Plataformas como Booking e Airbnb permitiram economias radicais. O “faça você mesmo” ganhou força, e muitos acreditaram que o papel das agências estava ameaçado pelas OTAs (Online Travel Agencies).
O Paradoxo da Escolha e a Estratégia “Fígital”
Hoje, se eu pedir para o ChatGPT ou Gemini montar um roteiro de 7 dias em Londres, terei a resposta em três segundos. Porém, essa facilidade criou a fadiga de decisão. O consumidor moderno se viu sobrecarregado de informações, mas carente de segurança.
Foi exatamente lendo esse cenário que conduzi processos de modernização e turnaround em grandes players do mercado. Na época, minha visão foi clara: não devíamos lutar contra a tecnologia, mas sim usá-la para empoderar o consultor.
Implementei o modelo “Fígital” (Físico + Digital) e a estratégia Asset-Light. Internalizamos a tecnologia para que o cliente pudesse pesquisar no app, tirar dúvidas pelo WhatsApp e fechar o pacote na loja física com total segurança. Essa digitalização otimizou custos, permitiu lojas mais eficientes e recuperou o valor de mercado das operações que liderei. A internet transformou a passagem simples em commodity, mas nos posicionou como especialistas nas viagens que realmente importam: as férias da família, a lua de mel, o sonho.
Conclusão: A Curadoria é o Destino
Os irmãos Michelin já sabiam disso lá atrás: não importa o quão avançada seja a máquina ou o algoritmo, o cliente sempre vai precisar de uma boa curadoria e da confiança de um aperto de mão para seguir o melhor caminho. A tecnologia molda o meio, mas o humano ainda define o valor da jornada.

